Há pelo menos uns seis anos que tenho refletido sobre a questão do Tempo, quando li sobre o modo como o povo Nuer lidava com ele. O antropólogo que os estudou, Evans Pritchard, disse algo que ficou na minha memória: que os nuer nunca estavam atrasados, porque não baseavam o cumprimento de suas atividades em um tempo abstrato, mas nas próprias atividades, umas em relação às outras. Eu, como uma moradora de São Paulo capital, comecei a levantar a hipótese de que o meu problema em administrar o tempo talvez não estivesse exatamente em uma falta de disciplina ou domínio próprio, mas numa concepção errada de tempo.
Comecei a refletir sobre as diferentes concepções possíveis de tempo, que o próprio autor nomeou: o tempo natural, baseado nos ciclos da natureza, nas estações do ano e na posição das estrelas; o tempo social: baseado nas diferentes atividades e rituais que um grupo realiza por consenso em seu dia-a-dia (que era o caso dos Nuer); o tempo mecânico: que é o tempo do relógio. Numa civilização em que a relação com a natureza está profundamente rompida e os laços sociais relativizados pela diversidade cultural, torna-se muito difícil encontrar um outro regulador comum que não o relógio. O problema é que o relógio, de tão neutro, de tão arbitrário, torna-se ele mesmo um tanto quanto desprovido de sentido para nós. Porque amanhã e não depois? Porque agora e não depois de um banho? Por compromisso?
O paradoxo é que a palavra "compromisso" parece ser igualmente insuficiente, em uma sociedade de laços líquidos. Talvez, a única coisa que poderia realmente nos levar a funcionar pelo tempo mecânico seria nos tornarmos semelhantemente metódicos, funcionando debaixo de regras não questionadas. Mas para mim, pelo menos, essa postura, um tanto quanto legalista, não era uma soliução. Entendi que o tempo do relógio era um dado social. Eu não poderia mudá-lo. Mas ainda precisava descobrir uma forma saudável e eficiente de lidar com ele.
Descobri então um artigo chamado "procrastinação estruturada", do filósofo da linguagem John Perry, que propunha uma atitude mais irreverente na nossa relação com o tempo mecânico, reconhecendo as limitações naturais que ele nos impõe. A verdade é que a presença do tempo mecânico é relativamente desestimulante, pra não dizer broxante, uma vez que não tem um sentido simbólico, de modo que o simples fato de termos um prazo para uma atividade já é capaz de torná-la menos interessante de ser realizada. A proposta da procrastinação estruturada permite que realizemos mais atividades de acordo com o tempo social, de modo mais espontâneo e voluntário, enquanto procrastinamos outras que estejam em foco. A teoria resolve parcialmente, assim, o problema da administração do tempo, mas não o elimina totalmente.
Talvez a grande contribuição dessa teoria seja nos fazer perceber que para algumas coisas como o conhecimento (considerando que John Perry se referia principalmente a tarefas acadêmicas) não se pode tornar-se produtivo seguindo algo como a linearidade do relógio. O conhecimento, começo a pensar, é construído de modo não-linear, colaborativo (depende de condições externas), irregular. Bom, daí que já se pode contemplar um outro problema a se apontar no tempo, além da sua apropriação social. A sua lógica. Linear, circular, espiralada? Um pouco de todas elas?
Mas não comecei a escrever esse artigo, após seis anos de reflexão, apenas para compartilhar minhas angústias. É porque, de alguma maneira, contemplo uma resposta que pode me auxiliar (e nos auxiliar, talvez) em uma reconciliação com o tempo. E ela surgiu quando voltei a assistir um vídeo da RSAnimate, chamado "Os poderes secretos do tempo". Esse vídeo traz ainda uma leitura psicológica para nossa relação com o tempo. Philip Zimbardo elenca três perspectivas principais (e seis no total) do tempo: orientado para o passado, orientado para o presente e orientado para o futuro. Assistindo ao vídeo, aprendemos uma série de coisas sobre nós mesmos e sobre os outros, mas principalmente que em todos essas perspectivas, há problemas. Pessoas orientadas para o passado tendem a ser mais depressivas, seja fazendo uma leitura nostálgica ou fatalista de suas experiências. Pessoas orientadas para o futuro, tendem a manter uma postura maior de ansiedade, que lhes impede de construir no presente o que desejam para o futuro. Mas pessoas orientadas para o presente tendem ao hedonismo e ao vício, por não se focarem nas consequências futuras dos seus atos.
Bom... o que fazemos com isso se, seja por ansiedade, vício ou depressão, estaríamos irremediavelmente condenados à imobilidade? A resposta que vejo nisso é que o problema está na visão linear e, principalmente, fragmentada do tempo. E é nesse momento em que recorro à visão bíblica, que me chegou como insight, em que não se vê a mesma fragmentação. É possível analisar a perspectiva bíblica a partir da forma como Deus e Jesus são nomeados na Bíblia (no antigo e no novo testamento, ou seja, hebraico e grego, respectivamente): "Eu sou aquele que é"; "Aquele que era, que é e que há de vir"; "O começo e o fim". A língua, por ser cultural, nos obriga a conjugar em tempos. Entretanto, a forma como a linguagem bíblica resolve essa limitação é mostrando que Deus é, ao mesmo tempo, passado, presente e futuro e não está limitado por isso.
Talvez, nos nomes gregos essa conjunção de tempos fique mais evidente para nós. Mas é na primeira definição de Deus, em hebraico, quando Ele se nomeia para Moisés no livro de Êxodos, que vemos essa perspectiva mais claramente. Em português, nossos tempos verbais são bastante limitantes, de modo que as traduções optam pelo presente como se fosse a mais próxima de uma "essencialidade" atemporal ou eterna, o que não acontece no hebraico. A Wikipedia traz um comentário que nos ajuda a compreender um pouco o termo original, "Ehyeh Asher Ehyeh", traduzido algumas vezes como "Eu sou o que sou" ou "Eu sou o que serei", entre outras versões:
Tempos' verbais em hebraico denotam ação, não tempo: o 'tempo' perfeito denota ação concluída, e o imperfeito denota ação incompleta. Assim, o 'pretérito' imperfeito pode ser traduzido como presente ou futuro, e isso pode causar problemas na tradução. A dificuldade é que para a mente hebraica, mesmo algo concluído pode ser no futuro. Por exemplo, eu posso dizer 'meu pai me ensinou sobre a vida', que é escrito no pretérito. Enquanto 'meu pai me ensinou há muitos anos', nós vemos isto como tempo passado e na mente hebraica é uma ação concluída. Mas, na mente hebraica esta ação concluída existe no passado, presente e no futuro.
A resposta que fica para mim é que somos seres eternos, quando identificados com a semelhança de Deus, quando feitos Filhos de Deus, semelhantemente criadores, e a eternidade não pode ser dividida em passado, presente e futuro, porque ela é atemporal. Quem sabe então, se formos capazes de nos apropriar dessa concepção de tempo, desfrutemos do mesmo poder Criador daquele que, não só é, foi e será, como "faz ser" em todos os tempos*.
*Para essa interpretação, "causativa", do verbo, vale a pena ver também as análises do tetragrama YHVH.

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