Por um certo racionalismo, tive dificuldade em compreender a Ressurreição como um fenômeno real e não apenas simbólico. Depois, percebi que mesmo quando pensava compreender absolutamente, ainda havia algo mais a entender sobre o seu significado. Nunca compreendemos absolutamente os fenômenos divinos e estamos sempre no caminho de conhecê-los, na verdade; eis o significado da santificação. Nesse longo processo, creio que posso nomear três fases de entendimento sobre a Ressurreição.
O primeiro momento foi compreendê-la como um retorno a Deus e à sua existência em eternidade e onipresença. Deixar de "ver em parte", para então "ver face a face". Somos parte, manifestações parciais da obra de Deus; enquanto Deus é aquele que é ao mesmo tempo, "aquele que é, e que era, e que há de vir" (Apocalipse 1:8), no passado, presente e futuro. N'Ele, não há o tempo, nem o espaço, apenas o Ser; "Eu sou o que Sou" (Êxodo 3:14). Retornar à eternidade como Espírito elimina todas as divisões e grandes problemas humanos.
Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido.
1 Coríntios 13:12
Além disso, viver com a lembrança da Ressurreição e com o conhecimento de que somos membro e parte do Corpo de Cristo também é capaz de transformar o nosso modo de nos relacionarmos com os outros.
Num segundo momento, passei a observar o sentido da ressurreição no meu dia a dia; em especial por meio da história de Lázaro. É o conhecimento de que todo erro, doença, fracasso, neste mundo pode servir ao propósito de Deus e à sua Glória. Que quando cairmos, sua Graça não deixará de estar nos amparando, porque somos dEle na eternidade.
Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; E todo aquele que vive, e crê em mim, nunca morrerá. Crês tu isto?
Este segundo significado da ressurreição nos ensina a perseverar na Terra e a não desanimar. Mas há, ainda, outro modo mais pró-ativo de se pensar a ressurreição.
Todas as conquistas que obtive em Deus ocorreram por obediência diária e não pelo esforço ou determinação. A obediência semeou grandes e pequenos frutos no futuro para mim e me conduziu a terras de abundância e graça. Aprendi, com o passar do tempo, que a melhor forma de "trazer" um futuro almejado, de se obter uma conquista, é se preparando para ela; porque o realizar está em Deus, e a nós, cabe o estar preparado para receber suas bênçãos. Resumidamente, se você aguarda ansiosamente uma visita, comece a arrumar a casa e, quando terminar, ela baterá à sua porta.
Percebemos, assim, que todo acontecimento está nas mãos de Deus. Nada que nos aconteça, acontece sem motivo. Seja como resposta e colheita para os servos obedientes, seja como repreensão e correção para o arrependimento; mas sempre com um bom propósito. A morte, como acontecimento, não é diferente. Ela também não é acaso, fatalidade ou acidente. Quando entendi isso, entendi também que a vida em si é o tempo que temos para "arrumar a casa". Que não devemos fugir dela e ignorar sua "visita", mas "trazê-la" pela preparação. E essa preparação longa e completa é a santificação.
Ora, se obtemos futuros gloriosos com obediências pequenas, o que não nos aguardará após um longo processo de santificação, de uma vida inteira? É assim que entendi que a morte (ou a Ressurreição) só pode nos trazer uma grande Graça, a maior das recompensas. Mas para crer nisso, é importante ter experimentado as pequenas obediências e a fidelidade de Deus em nos recompensar. E é preciso, também, viver tendo em mente essa constante preparação - para que estejamos prontos no momento em que ela chegar a nós. E se vivemos, é que ainda não estamos.
Naturalmente, a visita nos baterá à porta inevitavelmente. Para os que se preparam, quando estiverem prontos; mas para os que a evitam, quando não estiverem prontos.
Nesse sentido, saber da Ressurreição é caminhar com humildade de aprendiz diante dos sofrimentos que enfrentamos, sabendo que Deus quer nos santificar e que tem um bom propósito no nosso sofrimento. Quer corrigir-nos, para que nos aproximemos mais da sua Imagem e semelhança. Os passos diários de santificação, que nos fazem crescer em Deus, dão frutos permanentes e trazem recompensas para a nossa vida na terra. Mas não só. A própria caminhada na santificação é obediência e dá frutos para a Vida Eterna.
A diferença entre a caminhada para a ressurreição e vida e a caminhada para a morte não é a ausência de pecado, mas a postura no caminhar. Quando caminhamos para a morte, ao pecarmos e sermos repreendidos, agimos com rebeldia e altivez, negando a bondade de Deus para justificar nossos erros. E, assim, vamos nos afastando do conhecimento d'Ele. Quando caminhamos para a vida, mesmo quando caímos e erramos, mesmo quando agimos com rebeldia e altivez, somos conduzidos ao arrependimento. E se retornamos, é porque nos lembramos de que o Seu Caminho é o único capaz de conduzir à vida e a salvação.
Nada será vão, no caminho da Vida. Nenhum tempo é perdido, buscando o Seu Reino. Além de termos a certeza de que amanhã seremos melhores do que hoje, e que Ele garantirá o nosso sustento enquanto o buscamos, sabemos que toda santificação é uma preparação para algo ainda maior do que as pequenas vitórias que obtivemos e que ainda teremos. Dá-nos perseverança para permanecer até o fim, Senhor, e que possamos estar contigo no Grande Dia, para te glorificar.
