terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

A caminho da Ressurreição



Por um certo racionalismo, tive dificuldade em compreender a Ressurreição como um fenômeno real e não apenas simbólico. Depois, percebi que mesmo quando pensava compreender absolutamente, ainda havia algo mais a entender sobre o seu significado. Nunca compreendemos absolutamente os fenômenos divinos e estamos sempre no caminho de conhecê-los, na verdade; eis o significado da santificação. Nesse longo processo, creio que posso nomear três fases de entendimento sobre a Ressurreição. 

O primeiro momento foi compreendê-la como um retorno a Deus e à sua existência em eternidade e onipresença. Deixar de "ver em parte", para então "ver face a face". Somos parte, manifestações parciais da obra de Deus; enquanto Deus é aquele que é ao mesmo tempo, "aquele que é, e que era, e que há de vir" (Apocalipse 1:8), no passado, presente e futuro. N'Ele, não há o tempo, nem o espaço, apenas o Ser; "Eu sou o que Sou" (Êxodo 3:14). Retornar à eternidade como Espírito elimina todas as divisões e grandes problemas humanos. 
Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido.
1 Coríntios 13:12
Além disso, viver com a lembrança da Ressurreição e com o conhecimento de que somos membro e parte do Corpo de Cristo também é capaz de transformar o nosso modo de nos relacionarmos com os outros. 

Num segundo momento, passei a observar o sentido da ressurreição no meu dia a dia; em especial por meio da história de Lázaro. É o conhecimento de que todo erro, doença, fracasso, neste mundo pode servir ao propósito de Deus e à sua Glória. Que quando cairmos, sua Graça não deixará de estar nos amparando, porque somos dEle na eternidade.  
Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; E todo aquele que vive, e crê em mim, nunca morrerá. Crês tu isto?
Este segundo significado da ressurreição nos ensina a perseverar na Terra e a não desanimar. Mas há, ainda, outro modo mais pró-ativo de se pensar a ressurreição.

Todas as conquistas que obtive em Deus ocorreram por obediência diária e não pelo esforço ou determinação. A obediência semeou grandes e pequenos frutos no futuro para mim e me conduziu a terras de abundância e graça. Aprendi, com o passar do tempo, que a melhor forma de "trazer" um futuro almejado, de se obter uma conquista, é se preparando para ela; porque o realizar está em Deus, e a nós, cabe o estar preparado para receber suas bênçãos. Resumidamente, se você aguarda ansiosamente uma visita, comece a arrumar a casa e, quando terminar, ela baterá à sua porta.

Percebemos, assim, que todo acontecimento está nas mãos de Deus. Nada que nos aconteça, acontece sem motivo. Seja como resposta e colheita para os servos obedientes, seja como repreensão e correção para o arrependimento; mas sempre com um bom propósito. A morte, como acontecimento, não é diferente. Ela também não é acaso, fatalidade ou acidente. Quando entendi isso, entendi também que a vida em si é o tempo que temos para "arrumar a casa". Que não devemos fugir dela e ignorar sua "visita", mas "trazê-la" pela preparação. E essa preparação longa e completa é a santificação. 

Ora, se obtemos futuros gloriosos com obediências pequenas, o que não nos aguardará após um longo processo de santificação, de uma vida inteira? É assim que entendi que a morte (ou a Ressurreição) só pode nos trazer uma grande Graça, a maior das recompensas. Mas para crer nisso, é importante ter experimentado as pequenas obediências e a fidelidade de Deus em nos recompensar. E é preciso, também, viver tendo em mente essa constante preparação - para que estejamos prontos no momento em que ela chegar a nós. E se vivemos, é que ainda não estamos.

Naturalmente, a visita nos baterá à porta inevitavelmente. Para os que se preparam, quando estiverem prontos; mas para os que a evitam, quando não estiverem prontos.

Nesse sentido, saber da Ressurreição é caminhar com humildade de aprendiz diante dos sofrimentos que enfrentamos, sabendo que Deus quer nos santificar e que tem um bom propósito no nosso sofrimento. Quer corrigir-nos, para que nos aproximemos mais da sua Imagem e semelhança. Os passos diários de santificação, que nos fazem crescer em Deus, dão frutos permanentes e trazem recompensas para a nossa vida na terra. Mas não só. A própria caminhada na santificação é obediência e dá frutos para a Vida Eterna.


A diferença entre a caminhada para a ressurreição e vida e a caminhada para a morte não é a ausência de pecado, mas a postura no caminhar. Quando caminhamos para a morte, ao pecarmos e sermos repreendidos, agimos com rebeldia e altivez, negando a bondade de Deus para justificar nossos erros. E, assim, vamos nos afastando do conhecimento d'Ele. Quando caminhamos para a vida, mesmo quando caímos e erramos, mesmo quando agimos com rebeldia e altivez, somos conduzidos ao arrependimento. E se retornamos, é porque nos lembramos de que o Seu Caminho é o único capaz de conduzir à vida e a salvação. 

Nada será vão, no caminho da Vida. Nenhum tempo é perdido, buscando o Seu Reino. Além de termos a certeza de que amanhã seremos melhores do que hoje, e que Ele garantirá o nosso sustento enquanto o buscamos, sabemos que toda santificação é uma preparação para algo ainda maior do que as pequenas vitórias que obtivemos e que ainda teremos. Dá-nos perseverança para permanecer até o fim, Senhor, e que possamos estar contigo no Grande Dia, para te glorificar.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

A igreja de Abraão e Jesus


Quando Abrão completou noventa e nove anos, Iaweh lhe apareceu e lhe disse: "Eu sou El Shaddai, anda na minha presença e sê perfeito. Eu instituo minha aliança entre mim e ti, e te multiplicarei extremamente."
Gênesis 17:1-2 (trad. Bíblia de Jerusalém)

A Bíblia conta a história de Abrão (cujo nome Deus mudaria para Abraão) no livro de Gênesis, do capítulo 12 ao 25. Embora outras personagens bíblicas tenham experimentado a relação pessoal com o Deus vivo, é por meio de Abraão que essa experiência se tornará uma aliança de gerações e a fé judaica se tornará uma religião. Em meio a uma era em que os deuses eram concebidos como entidades distantes dos homens, alguns poucos tiveram o privilégio de conhecer a Deus, por meio de um chamado pessoal. Não havia nenhuma igreja que o pregasse, nem pessoas que evangelizassem sobre Ele. Não havia, sequer, um livro como a Bíblia, que narrasse sobre os feitos de Deus e ajudasse aqueles que o buscavam a conhecer sua personalidade. 

Naquele tempo, mesmo o sentido de obedecer a Deus e ser bom diante d'Ele era nebuloso. O que agradaria a Deus? Será que Ele se agradaria de sacrifícios humanos, como Baal, por exemplo? Essa é, aliás, uma das dúvidas de Abraão, ao levar seu filho Isaque ao altar, diante d'Ele. Deus aceitou aquele sacrifício. Não o da morte, mas o da vida: a oferta que Abraão fez de seu filho único (e de sua descendência) para Deus. A oferta viva de Abraão agradou tanto a Deus, que Ele a repetiria, no futuro, selando o ciclo judaico, ao oferecer, Ele mesmo, o seu único filho, numa demonstração de amor e aliança com os homens. E, apesar de não termos sido bons o suficiente para receber essa oferta viva como Deus a recebeu (porque nós O sacrificamos), a oferta foi feita e, por meio dela, Deus selou uma aliança eterna com o seu povo. 

Na época de Jesus, havia sim os templos. E havia a Bíblia também. Entretanto, o povo de Deus revelou um grande desconhecimento, porque haviam se esquecido da relação pessoal com Ele. Há duas passagens em especial, na Bíblia, em que Jesus nos ensina sobre a verdadeira relação com Deus.
Respondeu-lhes Jesus: "Destruí esse santuário e em três dias eu o levantarei". Disseram-lhe, então, os judeus: "Quarenta e seis anos foram precisos para se construir esse santuário, e tu o levantarás em três dias?" Ele, porém, falava do santuário de seu corpo. Assim, quando ele ressuscitou dos mortos, seus discípulos lembraram-se de que dissera isso, e creram na Escritura e na palavra dita por Jesus.
João 2:19-22
Jesus queria restaurar um outro templo: o nosso corpo. Por meio da restauração desse templo, poderia ser reconstruída também a nossa relação pessoal com Ele. E a primeira coisa a se relembrar, ao restaurarmos nossa relação íntima e pessoal com Deus é que não se trata de "ondes" - em qual igreja, por exemplo -, mas "comos". Ao menos, é isto que Jesus deixa bastante claro para a mulher samaritana, quando ela lhe pergunta sobre a correta "prática religiosa":
Nossos pais adoraram neste monte, e vós dizeis que é em Jerusalém o lugar onde se deve adorar. Disse-lhe Jesus: Mulher, crê-me que a hora vem, em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vós adorais o que não sabeis; nós adoramos o que sabemos porque a salvação vem dos judeus. Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem. Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade. 
João 4:20-24

Quando Jesus reconstrói a ideia de adoração para aquela mulher, ele não está apenas dizendo que não importa faz onde ela irá adorar, mas que importa que esta adoração seja constante em sua vida. Não é possível adorar a Deus em espírito e em verdade apenas quando vamos a uma igreja. A relação com Deus é uma relação a ser construída e tornada real diariamente por meio da santificação e busca pessoal. 

Esta postura não elimina a igreja da vida do cristão, mas a coloca em segundo plano. O mais frequente, depois da conversão, é trocarmos nossa relação pessoal pela vida na igreja - como se esta pudesse resumir a imensidão da nossa experiência de encontro com Jesus. Ou ainda, na melhor das hipóteses, vivemos a relação pessoal como um complemento para a vida na igreja; oramos diariamente, fazemos leituras bíblicas como uma espécie de "tarefa de casa", muitas vezes recomendadas pela igreja. 

Ora, não podemos nos apoiar sobre a igreja, delegando a ela a responsabilidade sobre o nosso caminhar com Deus. Que diremos quando aqueles em quem nos apoiamos tropeçarem? 
Então disse Adão: A mulher que me deste por companheira, ela me deu da árvore, e comi. E disse o Senhor Deus à mulher: Por que fizeste isto? E disse a mulher: A serpente me enganou, e eu comi.

Culto pessoal


Davi compunha músicas para louvar a Deus em particular. Abraão erguia altares no meio do deserto em adoração. Jó conversava com Deus. Todos caminhavam com Deus; mantinham a mente n'Ele, aprendendo, consultando, adorando. Para além desta postura diária, que deve nos acompanhar nos ônibus e ruas - quando estamos em silêncio -, agrada a Deus erigirmos um culto pessoal a Ele. O que eu posso fazer para construir um culto diário para Ele? Posso escrever a minha própria "mensagem", baseada nos aprendizados e conhecimentos que tenham buscado obter dele. Posso dançar um louvor, se sei (ou gosto de) dançar, ou cantar uma música. Se for músico, posso compor, inclusive. Se não sei, posso aprender a fazer algo para servi-lo. 

É possível criarmos em nosso lar e nossa vida um momento de culto pessoal, que demarque a nossa intimidade e desejo de aproximação, para além da religiosidade da igreja. O culto com a igreja será, então, uma oportunidade para servir a Deus, compartilhar graças, dar de si, abençoar outras pessoas - mais do que ser servido, receber graças e ser abençoado. Sejamos bênção para aqueles em nosso entorno. Tenhamos profundidade e largura em nossa relação com Deus. Nos tornemos tudo para o que fomos recriados:
Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz;
Todos nós, convertidos, podemos e somos chamados a ser Sacerdócio, não apenas os pastores, ministros, diáconos. Todos nós somos chamados a caminhar para sermos Davis e Abraãos e Jós. Que nos apropriemos de nossa identidade real, para vivermos aquilo para o qual fomos chamados: anunciar as virtudes de Deus.