quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Deus é anarquista


A Anarquia como sistema político, no Antigo Testamento

Ponto inicial para que eu aderisse à Anarquia como perspectiva política foi analisar a passagem em que Saul é erigido rei de Israel. Até surgir Saul, Israel não tinha rei. Teve profetas, juízes, naturalmente tornados pessoas de confiança do povo, a quem voluntariamente se dirigiam para consultar. Talvez eu não tivesse observado isso com calma até então. O fato de que Israel tenha passado a ter um Rei também não é óbvio nem natural. Segundo a narrativa bíblica, o povo quis ter um rei para se assemelhar às outras nações, considerando o dado como privilégio. E eis como Deus recebeu e tratou a vontade do povo, a Ele trazida pelo profeta Samuel.
Porém esta palavra pareceu mal aos olhos de Samuel, quando disseram: Dá-nos um rei, para que nos julgue. E Samuel orou ao SENHOR. E disse o SENHOR a Samuel: Ouve a voz do povo em tudo quanto te dizem, pois não te têm rejeitado a ti, antes a mim me têm rejeitado, para eu não reinar sobre eles.  1 Samuel 8:6-7
Aconselho a leitura do capítulo completo, na verdade (1 Samuel 8), em que Deus discursa prevenindo o povo sobre o significado do que eles estão pedindo - ou seja, o que é ter um "rei" (já que o povo não sabia ainda). Entretanto, na descrição, reconheceríamos facilmente um presidente de nossa época. Para aquele povo, estar sob o governo de alguém seria profundamente degradante. Mas eles decidem  insistir na sua vontade e Deus a permite, como livre arbítrio.

A anarquia como perspectiva filosófica, no Novo Testamento

No novo testamento, a discussão não é política, mas filosófica e teológica. Um dos grandes debates do novo testamento, especialmente evidente no livro de Gálatas, é a oposição entre Lei e Fé. A Lei, negação primeira também na doutrina anarquista, está associada à religiosidade e ao cumprimento objetivo de mandamentos e dogmas institucionais. A Fé, por outro lado, é pessoal, invisível e não impositiva, age de dentro para fora. Para o apóstolo Paulo, no novo testamento,
...o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo, temos também crido em Jesus Cristo, para sermos justificados pela fé em Cristo, e não pelas obras da lei; porquanto pelas obras da lei nenhuma carne será justificada. Gálatas 2:16
Assim sendo, o melhor a fazermos, seria abandonarmos toda preocupação com o cumprimento da Lei, e vivermos segundo a fé que temos em nós. Qual seria o resultado disso? Uma vida desregrada? Desobediência às autoridades? Talvez. A questão é que só sabemos a fé que há em nós (ou que não há em nós) quando abandonamos a obrigatoriedade da Lei.

A anarquia como eixo subjetivo, em Jesus

Fé e Amor, eis o que passa a nos governar, num mundo anárquico. Imagine-se então uma cristã "recém-anarquizada", que começa a faltar com seus compromissos, deixar de cumprir com alguns princípios sociais e que, por agir totalmente guiada por suas convicções, em suas transgressões, se considera justificada. Talvez ela tenha abolido de fato outros reis, em favor do governo de Deus em sua vida; às custas até mesmo do seu próprio prejuízo, esteja correndo riscos. Ela se jogou de cabeça, agiu por fé. Ela começa a cumprir o primeiro dos dois principais mandamentos (que, em realidade, não se cumpre sozinho): "Amar a Deus sobre todas as coisas".

O problema desta cristã recém-anarquizada é que o seu coração verdadeiro (por detrás da hipocrisia de qualquer obediência legalista) é egoísta e, numa situação de liberdade, tende a buscar apenas o próprio bem estar e a priorizar a sua própria felicidade. Dessa forma, a anarquia para ela representou um abandono total dos compromissos e valores. O que ela nomeou como "compromissos e valores" são, na verdade, necessidades, sentimentos e desejos de outros; e muitas pessoas podem ter sofrido injustamente por conta dessa negligência. O respeito e o amor ao próximo, mais do que a Lei, é o que deve nos levar a tomar algumas atitudes que talvez sejam até mesmo um pouco sacrificiais.

Dessa forma, não há por que pensar que a anarquia conduza necessariamente ao caos; ela pode, na pior das hipóteses, revelar o que há por trás de um cumprimento hipócrita da Lei. Trazer à Luz. O que garante o perfeito funcionamento social não são as leis, mas o amor. Não à toa, Jesus resumiu a Lei a apenas dois mandamentos, os mandamentos de amor.

"'Amar a Deus sobre todas as coisas e Amar ao próximo como a si mesmo', nisso se resume a Lei e os mandamentos"

A Princípio, o amor próprio e o amor ao próximo parecem inconciliáveis. Quando me amo em primeiro lugar, negligencio compromissos e princípios em meu favor. Quando amo ao outro primeiro, negligencio minha saúde e minha felicidade em favor do outro. Nos dois casos, eu me destruo e desestabilizo a minha relação com o outro. Mas se eu amo ao próximo como a mim mesma, edifico a ambos. Isso quer dizer que eu não colocarei a minha saúde e felicidade sempre acima das necessidades e desejos do outro, nem colocarei as necessidades e desejos do outro sempre acima da minha saúde e felicidade. Ambos devem ser satisfeitos, ainda que a satisfação do outro sempre represente, de certa forma, um sacrifício pessoal; o limite do meu ego. A disciplina se encontra, de fato, no equilíbrio perfeito entre o meu amor próprio e meu amor ao próximo, mas é o amor que devemos desejar e não a disciplina em si, que é consequência.

Por fim, creio que podemos lembrar do famoso capítulo de 1 Coríntios 13, sobre o amor, de modo que a nossa bondade seja completa na Fé. Lendo-o hoje, penso que o objetivo dessa descrição de Paulo não é que concluamos se o que sentimos por alguém é amor ou outro sentimento, mas que julguemos se sabemos amar de fato.
O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor. O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor nunca perece...
1 Coríntios 13:4-8
Se você se ressentiu de ainda não ter chegado nesse "nível" e pensou em como mudar, lembre-se de que o amor também não é uma "habilidade" que se conquiste, produto do esforço ou de qualquer relação de "troca" meritória. O amor não é uma prática economicista. Por tratarmos o amor assim, é que, muitas vezes, o perdemos de vista. Antes, é dom e é gratuito. A única forma de se tornar amoroso é, sem a pretensão de "conquistá-lo", tornar-se aberto e sensível para a experiência.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Obediência e obstinação




Por mais que vos prepareis para a luta haveis de ficar apavorados. Por mais planos que façais, eles serão frustrados. Por mais que pronuncieis a vossa decisão, ela não se manterá. 
Isaías 8:9b-10a (versão citada da Bíblia de Jerusalém)



Enquanto lia Isaías, e refletia sobre as profecias de Deus, me deparei com esse versículo. Trata-se da fala de Deus para os adversários do seu povo e não para o seu próprio povo. Mesmo assim, ao ler a passagem, não pude deixar de identificá-la comigo. E acho que há muitos de nós que se veem nessa condição: mesmo quando "está em dia com as obrigações", sente ansiedade; mesmo quando se prepara para uma palestra ou para uma atividade profissional ou outro desafio, sente-se atemorizado. Chegamos a pensar, às vezes, se vale à pena, tanto esforço. 

Quantos projetos, por outro lado, deixamos de realizar, seja por não ter a capacidade de realização e de levá-los até o fim, seja por encontrar muitas barreiras à nossa frente? E, em momentos de grande fracasso, chegamos a nos perguntar por que Deus estaria bloqueando o nosso caminho - há um motivo. Quantas vezes não temos precisado voltar atrás em nossas palavras e descumprir acordos, prazos, horários e compromissos, e nos sentimos, mesmo que por um momento, humilhados diante da nossa incapacidade e frequente procrastinação?

Os falsos profetas, aqueles que dizem "paz, quando não há paz" e "curam superficialmente o mal" do povo (Jeremias 6:14), diriam: "confie em Deus, tudo vai dar certo!" ou "somos imperfeitos, aceite com humildade!". Apesar das boas intenções destes, nada muda dentro de nós ou em nossa vida. Continuamos a nos sentir ansiosos e frustrados. Na verdade, Deus mesmo determinou sobre nós: 
Por mais que vos prepareis para a luta haveis de ficar apavorados. Por mais planos que façais, eles serão frustrados. Por mais que pronuncieis a vossa decisão, ela não se manterá. 
Isaías 8:9b-10a (versão citada da Bíblia de Jerusalém)

E até que convertamos o nosso coração endurecido, não seremos transformados. O propósito de Deus nesta decisão é corrigir a nossa obstinação, nosso coração obstinado. Oscilamos entre "deixar tudo nas mãos de Deus" e "confiar em nós mesmos". Naturalmente, há aqueles de nós que optam ainda por "seguir a Lei". Estes, dos três grupos, são os que mais sofrem, porque sofrem, não só com o fracasso, mas com a culpa pelo pecado. Esse último grupo precisa aprender mais sobre a Graça. Mas os que já conhecem a Graça de Deus e não querem se submeter à Lei, muitas vezes não encontram o "caminho estreito", ou o "caminho do meio". 

O que é a obstinação? 

Obstinado estava o Faraó, quando decidiu firmemente não libertar os hebreus. Na Bíblia, fala-se também do "coração endurecido". É um estado de espírito que nos impede de obedecer a Deus, seja por idolatria - não querer abrir mão de alguma coisa ou por algo na frente de sua relação com Deus - ou apenas por desconhecimento. No caso do Faraó, sua obstinação estava na idolatria, no amor à riqueza propiciada pelo uso da mão de obra escrava e também no orgulho, que é o amor ao seu próprio poder. 

"Atrevidos, obstinados" são também aqueles que "seguindo a carne, andam em desejos impuros e desprezam dominações" (2 Pedro 2:10, tradução da Sociedade Bíblica Britânica). Somos obstinados, quando agimos apenas movidos pela nossa autoconfiança e vontade de fazer dar certo, mesmo que às custas do corpo - aquele momento em que você diz: daqui pra frente, vou cumprir tudo; hoje, resolverei todos os meus problemas, ou terminarei aquele projeto, ou mudarei minha dieta. Pedro também usa o termo "ambiciosos", ou "gananciosos", segundo algumas traduções. A "decisão firme", a "obstinação", costuma ser valorizada como um gesto positivo, como uma virtude, na nossa época e cultura, e é especialmente praticada às vésperas do ano novo. Sobre esse comportamento, Tiago nos previne:
Ouçam agora, vocês que dizem: "Hoje ou amanhã iremos para esta ou aquela cidade, passaremos um ano ali, faremos negócios e ganharemos dinheiro". Vocês nem sabem o que lhes acontecerá amanhã! Que é a sua vida? Vocês são como a neblina que aparece por um pouco de tempo e depois se dissipa. Ao invés disso, deveriam dizer: "Se o Senhor quiser, viveremos e faremos isto ou aquilo". Agora, porém, vocês se vangloriam das suas pretensões. Toda vanglória como essa é maligna.
Quando conquistamos e realizamos feitos aos quais nos propomos, quem é glorificado? Nós mesmos. E quando fracassamos, somos também nós que somos humilhados e nos sentimos diminuídos em nosso valor. Apenas por esforço e obrigação, nos recordaríamos de Deus para sinceramente lhe agradecer no sucesso; ou buscaríamos compreender os seus propósitos, no fracasso. Entretanto, contentar-se em dizer "se Deus quiser", como se fosse um mantra seguro, ou o cumprimento da Lei, que garante a realização das nossas pretensões, não tornará o nosso coração menos obstinado e ambicioso.

Em Salmos 78:7-8, Davi nos revela o contrário da obstinação, que são a obediência e a fidelidade a Deus:
Então eles porão a confiança em Deus; não esquecerão os seus feitos e obedecerão aos seus mandamentos. Eles não serão como os seus antepassados, obstinados e rebeldes, povo de coração desleal para com Deus, gente de espírito infiel.

O que é a obediência a Deus?

A palavra "obediência" pode parecer-nos associada à ideia de "submissão" cega à Lei ou a uma ordem qualquer, segundo a nossa cultura e língua. Entretanto, pelo dicionário bíblico-teológico de Johannes Bauer (excelente, por sinal), sabemos que o Antigo Testamento hebraico nem mesmo possuía palavra para "obedecer". A ideia é verbalizada por "escutar", "responder" e "cumprir". Bauer acrescenta que "as expressões como 'escutar', 'responder', etc.. mostram que a relação entre Deus e o homem ou entre Deus e o povo é entendida como um permanente diálogo".

Assim, a ideia de obediência está muito mais associada a de um acordo, compromisso ou aliança estabelecida com Deus. "Desobedecer", nesse sentido, seria quebrar o acordo, enquanto "obedecer" significa ser fiel a ele. Afinal, os mandamentos de Deus, uma vez que os homens creiam neles, não funcionam como leis, mas como um compromisso entre Deus e os homens: "amarás a Deus sobre todas as coisas", "não matarás" etc.

Os acordos que estabelecemos com Deus, além disso, não se limitam aos mandamentos. Eles continuam a ser feitos, diariamente, quando tomamos decisões simples perante Ele. Essa fidelidade, devemos não só aos nossos compromissos feitos diante de Deus, como também aos que são feitos com os homens. Assim, cumprir prazos e horários combinados, por exemplo, são gestos de fidelidade. Podem nos parecer menos relevantes, ou passíveis de serem alterados a qualquer momento, mas esses pequenos gestos de compromisso representam bastante para Deus.

Darei um exemplo simples de conflito. Hoje, após acordar, consultei a Deus em oração e planejei a minha manhã, a partir da reflexão que fiz. O "combinado", com Deus e comigo mesma, era de que eu faria parte do meu trabalho no primeiro horário do dia e, num segundo momento, voltaria a esta postagem, que eu desejava concluir. Aconteceu, porém que, findo o trabalho, tive o ímpeto e a ideia de continuar a trabalhar - havia terminado rápido e estava animada! Minha obstinação (e ambição) dizia: "vou continuar a trabalhar e assim terminarei cedo. Posso terminar a postagem depois".

Entretanto, no mesmo tempo, o espírito me faz recordar que eu havia feito um compromisso; ou seja, uma decisão diante de Deus, de que eu me dedicaria à postagem após finalizar a primeira parte do meu trabalho. Ele me fez lembrar que manter o compromisso e a nossa palavra é importante para Deus, embora eu estivesse considerando, naquele momento, pouco relevante. E assim, recobrando o discernimento, pude me arrepender, e optar por manter aquela decisão, com fidelidade, garantindo que Deus permanecesse no controle da minha vida.

"Obedecer", no limite, é também garantir que estamos agindo segundo a verdade em que acreditamos, convencidos pelo espírito de Deus, e não movidos por impulsos, ganâncias ou outros vícios. É a "obediência" e a fidelidade aos pequenos compromissos que nos tornará, cada dia, mais coerentes com o que acreditamos e com o que se desejamos para nós. Se formos capazes de ser fiéis no pouco, honrando pequenas decisões e compromissos, tanto mais seremos capazes de realizar, no futuro, as coisas boas que sonhamos. É promessa de Deus:

Muito bem, servo bom e fiel! Sobre o pouco foste fiel, sobre o muito te colocarei. Vem alegrar-te com o teu senhor.
Mateus 25:21 (versão citada da Bíblia de Jerusalém)







sábado, 29 de novembro de 2014

Vós sois o sal da terra e a luz do mundo



Vós sois o sal da terra; e se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte; Nem se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas no velador, e dá luz a todos que estão na casa. Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus.
Mateus 5:14-16

Não se sentir amado por quem amamos e não se sentir útil ao mundo. Sentir que se perde o sentido da vida. Não encontrar amparo, compreensão, ou resposta que baste. Ninguém pode ajudar, porque todos precisam de ajuda, mesmo aqueles que parecem mais fortes e de quem dizemos: você é meu pai ou meu professor, meu chefe, você é mais velho do que eu, é um pastor ou um padre; você deveria dar conta e eu deveria poder contar com você. E, no entanto, eles parecem esperar o mesmo. Necessitados demais para sequer perceber as nossas necessidades. 

Mateus 5:13- 16 responde a esse dilema. Somos nós. Aquilo que cobramos do outro é nosso compromisso. É nossa vocação. E porque não temos sido "sal da terra" e "luz do mundo", nos sentimos imprestáveis, como que "para ser lançado fora e pisado pelos homens". Sejamos, voltemos a ser. Não só o que tem ânimo, mas o que leva ânimo ao outro. Não só o que vê com clareza, mas o que traz luz para que outros possam ver. Não podemos ser menos do que isso.

Foi assim que Ele nos escolheu. 
Vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz; Vós, que em outro tempo não éreis povo, mas agora sois povo de Deus; que não tínheis alcançado misericórdia, mas agora alcançastes misericórdia.
Lembremos da nossa identidade. Lembremos também de que não houve outro humano na terra que pudesse responder às nossas questões ou nos amar a ponto de morrer por nós a não ser Jesus. E nós temos a Ele, se reconhecermos que só Ele pode nos livrar de nossas angústias e nos tornar aquilo para o que fomos chamados.

Oração: Jesus, você conhece o amor, porque não olhou para o seu próprio sofrimento, mesmo que ele fosse muito grande, mas para o sofrimento do outro. Ensina-me a amar. Você é luz do mundo, e foi a luz enquanto esteve no mundo, continuai a ser luz por nosso meio, porque para isso estamos aqui. Que o teu sal nos salgue novamente a alma insípida, porque reconhecemos que só no teu Espírito habita esse dom.