sábado, 9 de janeiro de 2010

Dos combates da alma


A alma (nefes), no antigo testamento, é o lugar onde surgem os anseios, os desejos e a sede espiritual. Porém, esses anseios, muitas vezes parecem não estar voltados para o Senhor, ainda que ele seja a única fonte de água viva, capaz de saciá-los. O pensador Descartes, que é também cristão, nos esclarece que o combate entre corpo e espírito produz na alma um outro combate, entre os apetites naturais e a vontade. Gostaria de compartilhar aqui um trecho do livro que tem me ajudado a ser mais eficiente nesses combates. Está no livro "As paixões da alma", do mesmo autor.

Ora, é pelo sucesso desses combates que cada um pode conhecer a força ou a fraqueza de sua alma. Aqueles em quem a vontade pode naturalmente, com maior facilidade, vencer as paixões e deter os movimentos do corpo que as acomanham têm, sem dúvida, as almas mais fortes. Há, porém, aqueles que não podem comprovar sua força porque nunca fazem com que sua vontade combata com suas armas próprias, mas somente com aquelas que lhes fornecem algumas paixões, para resistir a algumas outras. Aquilo que denomino suas próprias armas são juízos firmes e determinados sobre o conhecimento do bem e do mal, segundo os quais ela resolveu conduzir as ações de sua vida. As almas mais fracas de todas são aquelas cuja vontade não se decide assim em seguir certos juízos, mas deixa levar continuamente pelas paixões presentes que, sendo muitas vezes contrárias umas às outras, a puxam, cada uma por sua vez, para seu partido e, empregando-a para combater contra si mesma, atiram a alma ao estado mais deplorável em que se possa subsistir.

Nesse trecho, Descartes nos ajuda a compreender o porquê de muitas vezes sentirmos que não temos controle sobre as nossas ações, como se a nossa vontade não tivesse força o suficiente para prevalecer. Em Romanos 8, Paulo também expressa esses combates no versículo 19: "Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço". Todos esses conflitos surgem de vivermos guiados pelas paixões e não por nossos juízos, como nos apresenta Descartes. Entretanto, há uma outra situação em que a nossa alma pode estar imobilizada ainda, quando não compôs um juízo certo, que é o estado de irresolução, também explicado por Descartes.

A irresolução... é uma espécie de temor que, retendo a alma como que suspensa entre várias ações que pode realizar, é causa de que não execute nenhuma e assim disponha de tempo para escolher antes de se decidir (...). Ora, afirmo que é uma espécie de temor, não obstante possa acontecer quando se deve escolher entre muitas coisas cuja bondade parece muito igual, que se permaneça incerto e irresoluto, sem que se sinta por isso nenhum temor.

Em menor escala, a irresolução pode ser de bom uso, mas quando se apresenta em excesso, "provém de um desejo demasiado grande de bem proceder e de uma fraqueza do entendimento que, não tendo noções claras e distintas, as tem somente muito confusas". Descartes sugere um remédio para a irresolução que não é difícil de ser interpretado do ponto de vista cristão. vamos ver, primeiro, o que ele propõe.

...o remédio contra esse excesso é o de acostumar-se a formar juízos certos e determinados em relação a todas as coisas que se apresentam e a crer que se cumpre sempre o próprio dever, quando se faz o que se julga ser o melhor, ainda que talvez se julgue muito mal.

A solução de Descartes tem duas frentes; a primeira é a de formar juízos certos e a segunda, a de crer.

No que diz respeito a formar juízos certos, o caminho cristão para isso é pelo conhecimento da Palavra de Deus, que são os juízos de Deus e, também, revelam o seu Espírito Santo. É o Espírito que nos "guia a toda a verdade" e dá discernimento e o seu espírito está no Verbo divino. Em Hebreus 4:12, lemos: "Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até o ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração". É nesse sentido, especialmente, que a Palavra de Deus nos dá discernimento, agindo como uma arma mais excelente que qualquer espada, nos combates da alma.

Quanto ao "crer que se cumpre sempre o próprio dever, quando se faz o que se julga ser o melhor, ainda que se julgue muito mal", isto se refere à justificação pela fé. Porque a nossa justificação não deve vir da lei, mas da fé que temos na verdade. Muitas vezes, ainda que nossas ações sejam questionáveis com relação à lei, elas podem ser justas com relação à fé. "Justificados, pois, mediante a fé, tenhamos paz com Deus, por meio de nosso Senhor Jesus Cristo".