Em João 19, Jesus é levado para ser crucificado. Neste trajeto, ele é humilhado diante dos sacerdotes, de soldados e do povo que clamava por morte. Ele foi agredido verbalmente e fisicamente e negado na sua identidade de filho de Deus e rei dos Judeus. Pilatos viu nele verdade e sinceridade, mas se submeteu aos seus encargos e às decisões dos outros, condenando Jesus. Buscando, entretanto, estar eximido da responsabilidade e da sua culpa, ele não deixou de pecar, pois foi cúmplice das decisões alheias.
É-nos, às vezes, difícil compreender o que seja a mansidão de Jesus, pois tendo sido humilhado e agredido, não se defendeu. Jesus estava antes preocupado com o sofrimento dos que seriam deixados, como o discípulo amado e Maria. Ele não pensou em seu próprio sofrimento. Entretanto, suas palavras se voltaram para os seus e ele não foi condescendente com o pecado da incredulidade do povo. Pelo contrário, foi a sua não-complacência que o levou até a cruz, sem retroceder, nem negar sua identidade de rei dos Judeus, de Cristo.
Pilatos, por outro lado, também teve atitude mansa. Porém, sua mansidão não vinha do conhecimento da verdade ou de confiança em Deus, mas ele era frágil para sustentar sua própria fé e a sua própria cruz, que é a culpa e a responsabilidade. Pilatos preferiu que os outros decidissem o destino de Jesus, crendo que, com isso, poderia se eximir de sua responsabilidade e escolha. Eximindo-se da responsabilidade, estaria eximido da culpa. Mas esta não era a mansidão verdadeira, pois Pilatos temia antes ao povo do que a Deus, sua renúncia era uma renúncia à fé e à verdade e não a renúncia do orgulho e de si mesmo, como em Jesus.
Quando escolhi a palavra "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me", para cumprir; ainda não compreendia o significado de negar a si mesmo ou de tomar a sua própria cruz.
Como Pilatos, não negava a mim mesma, mas à verdade, para ganhar, de qualquer forma o mundo; pois o homem quer reconhecimento social. Assim, também era minha atitude, muitas vezes não dizendo as coisas que eu queria, evitando fazer escolhas, deixando-as sempre para os outros, e não dando a minha opinião verdadeira sobre as atitudes dos outros - com a justificativa de que não devo julgar, quando na verdade, temo as conseqüências das minhas escolhas e temo também ser excluída por pensar diferente e expressar o que penso.
Mas se eu ajo dessa forma, então, não estou sustentando a minha identidade cristã, como Jesus o fez, carregando sua cruz. Com isso, talvez eu culpe ou responsabilize outras pessoas pelos meus problemas, sendo orgulhosa para reconhecer minha própria falta. Tomar a cruz exige coragem - não é simplesmente sofrer passivamente pelo que julgamos ser o erro dos outros - mas sofrer, de verdade, para sustentar a nossa identidade cristã diante das acusações e críticas no mundo. Estar disposto a sofrer por isso. Não é se ver como vítima dos outros, eximida de culpa, mas responsável pela sua própria escolha. Quando evitamos decisões, deixamos também para os outros um fardo, tornando-os responsáveis pelas conseqüências; mas precisamos carregar o nosso próprio. Essa é a cruz individual... Eu, por minha parte, ainda preciso compreender o que seja "Negar a si mesmo".
E.U.P.: Tomar a própria cruz.

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