Quando Abrão completou noventa e nove anos, Iaweh lhe apareceu e lhe disse: "Eu sou El Shaddai, anda na minha presença e sê perfeito. Eu instituo minha aliança entre mim e ti, e te multiplicarei extremamente."Gênesis 17:1-2 (trad. Bíblia de Jerusalém)
A Bíblia conta a história de Abrão (cujo nome Deus mudaria para Abraão) no livro de Gênesis, do capítulo 12 ao 25. Embora outras personagens bíblicas tenham experimentado a relação pessoal com o Deus vivo, é por meio de Abraão que essa experiência se tornará uma aliança de gerações e a fé judaica se tornará uma religião. Em meio a uma era em que os deuses eram concebidos como entidades distantes dos homens, alguns poucos tiveram o privilégio de conhecer a Deus, por meio de um chamado pessoal. Não havia nenhuma igreja que o pregasse, nem pessoas que evangelizassem sobre Ele. Não havia, sequer, um livro como a Bíblia, que narrasse sobre os feitos de Deus e ajudasse aqueles que o buscavam a conhecer sua personalidade.
Naquele tempo, mesmo o sentido de obedecer a Deus e ser bom diante d'Ele era nebuloso. O que agradaria a Deus? Será que Ele se agradaria de sacrifícios humanos, como Baal, por exemplo? Essa é, aliás, uma das dúvidas de Abraão, ao levar seu filho Isaque ao altar, diante d'Ele. Deus aceitou aquele sacrifício. Não o da morte, mas o da vida: a oferta que Abraão fez de seu filho único (e de sua descendência) para Deus. A oferta viva de Abraão agradou tanto a Deus, que Ele a repetiria, no futuro, selando o ciclo judaico, ao oferecer, Ele mesmo, o seu único filho, numa demonstração de amor e aliança com os homens. E, apesar de não termos sido bons o suficiente para receber essa oferta viva como Deus a recebeu (porque nós O sacrificamos), a oferta foi feita e, por meio dela, Deus selou uma aliança eterna com o seu povo.
Na época de Jesus, havia sim os templos. E havia a Bíblia também. Entretanto, o povo de Deus revelou um grande desconhecimento, porque haviam se esquecido da relação pessoal com Ele. Há duas passagens em especial, na Bíblia, em que Jesus nos ensina sobre a verdadeira relação com Deus.
Respondeu-lhes Jesus: "Destruí esse santuário e em três dias eu o levantarei". Disseram-lhe, então, os judeus: "Quarenta e seis anos foram precisos para se construir esse santuário, e tu o levantarás em três dias?" Ele, porém, falava do santuário de seu corpo. Assim, quando ele ressuscitou dos mortos, seus discípulos lembraram-se de que dissera isso, e creram na Escritura e na palavra dita por Jesus.
João 2:19-22
Jesus queria restaurar um outro templo: o nosso corpo. Por meio da restauração desse templo, poderia ser reconstruída também a nossa relação pessoal com Ele. E a primeira coisa a se relembrar, ao restaurarmos nossa relação íntima e pessoal com Deus é que não se trata de "ondes" - em qual igreja, por exemplo -, mas "comos". Ao menos, é isto que Jesus deixa bastante claro para a mulher samaritana, quando ela lhe pergunta sobre a correta "prática religiosa":
Nossos pais adoraram neste monte, e vós dizeis que é em Jerusalém o lugar onde se deve adorar. Disse-lhe Jesus: Mulher, crê-me que a hora vem, em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vós adorais o que não sabeis; nós adoramos o que sabemos porque a salvação vem dos judeus. Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem. Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade.
João 4:20-24
Quando Jesus reconstrói a ideia de adoração para aquela mulher, ele não está apenas dizendo que não importa faz onde ela irá adorar, mas que importa que esta adoração seja constante em sua vida. Não é possível adorar a Deus em espírito e em verdade apenas quando vamos a uma igreja. A relação com Deus é uma relação a ser construída e tornada real diariamente por meio da santificação e busca pessoal.
Esta postura não elimina a igreja da vida do cristão, mas a coloca em segundo plano. O mais frequente, depois da conversão, é trocarmos nossa relação pessoal pela vida na igreja - como se esta pudesse resumir a imensidão da nossa experiência de encontro com Jesus. Ou ainda, na melhor das hipóteses, vivemos a relação pessoal como um complemento para a vida na igreja; oramos diariamente, fazemos leituras bíblicas como uma espécie de "tarefa de casa", muitas vezes recomendadas pela igreja.
Ora, não podemos nos apoiar sobre a igreja, delegando a ela a responsabilidade sobre o nosso caminhar com Deus. Que diremos quando aqueles em quem nos apoiamos tropeçarem?
Então disse Adão: A mulher que me deste por companheira, ela me deu da árvore, e comi. E disse o Senhor Deus à mulher: Por que fizeste isto? E disse a mulher: A serpente me enganou, e eu comi.Culto pessoal
Davi compunha músicas para louvar a Deus em particular. Abraão erguia altares no meio do deserto em adoração. Jó conversava com Deus. Todos caminhavam com Deus; mantinham a mente n'Ele, aprendendo, consultando, adorando. Para além desta postura diária, que deve nos acompanhar nos ônibus e ruas - quando estamos em silêncio -, agrada a Deus erigirmos um culto pessoal a Ele. O que eu posso fazer para construir um culto diário para Ele? Posso escrever a minha própria "mensagem", baseada nos aprendizados e conhecimentos que tenham buscado obter dele. Posso dançar um louvor, se sei (ou gosto de) dançar, ou cantar uma música. Se for músico, posso compor, inclusive. Se não sei, posso aprender a fazer algo para servi-lo.
É possível criarmos em nosso lar e nossa vida um momento de culto pessoal, que demarque a nossa intimidade e desejo de aproximação, para além da religiosidade da igreja. O culto com a igreja será, então, uma oportunidade para servir a Deus, compartilhar graças, dar de si, abençoar outras pessoas - mais do que ser servido, receber graças e ser abençoado. Sejamos bênção para aqueles em nosso entorno. Tenhamos profundidade e largura em nossa relação com Deus. Nos tornemos tudo para o que fomos recriados:
Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz;
Todos nós, convertidos, podemos e somos chamados a ser Sacerdócio, não apenas os pastores, ministros, diáconos. Todos nós somos chamados a caminhar para sermos Davis e Abraãos e Jós. Que nos apropriemos de nossa identidade real, para vivermos aquilo para o qual fomos chamados: anunciar as virtudes de Deus.

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